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Consumo de carne de tubarão: riscos dos metais tóxicos à saúde

calendarPublicação: 27/08/2021- Última atualização: 27/08/2021
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Consumo de carne de tubarão: riscos dos metais tóxicos à saúde
Marcello Sapio
Marcello Sapio

Redator

O animal marinho vem sendo amplamente consumido no Brasil, mas 70% das pessoas não sabem que comem tubarão e o quanto sua carne pode ser prejudicial à saúde

“A única diferença entre cação e tubarão é quem está se alimentando de quem. Quando o homem se alimenta do animal, chamam de cação; quando o animal se alimenta do homem, chamam de tubarão”, brinca o biólogo e professor Douglas Peiró.

Mas a brincadeira se faz verdadeira. E o pior. Muitas pessoas comem carne de tubarão diariamente sem saber disso. Um estudo brasileiro publicado pela Science apontou que cerca de 70% dos brasileiros consomem cação sem saber de que se trata de um tubarão.

Cação é o nome comercial dado para “disfarçar” a carne de tubarão.

O consumo, mesmo sendo permitido no Brasil, acarreta em problemas como a degradação do bioma marinho, risco de extinção dos animais e a ingestão de altos níveis de metais pesados — encontrados no cação.

Desmitificando o cação

Esse corte, chamado de cação, envolve os elasmobrânquios — grupo de animais no qual o tubarão se enquadra. Os que são mais usados, nacionalmente, como cação são o tubarão-martelo, tubarão-anjo e raia-viola. Todos eles estão ameaçados de extinção.

Segundo a lei nacional 9.605, de 1998, o consumo não é proibido, desde que cumpra as regras de descarte da carcaça e que seja possível a identificação de qual animal foi usado. Porém, na prática, não acontece assim.

O que é feito frequentemente nos barcos e navios pesqueiros, tanto no Brasil, como no mundo, é que, ao capturar uma das espécies que configura o cação, eles limpam a carne e voltam à superfície já com o corte feito. Pronto para ser comercializado, é impossível saber de qual espécie veio.

Além disso, existe outra prática — essa já ilegal — chamada “finning”. Ela consiste em cortar as nadadeiras do tubarão e devolver o animal ao mar, condenando-o à morte.

Mesmo sendo ilegal, a prática é comum. Países da Ásia e da Europa compram as nadadeiras de tubarão por acreditarem que o membro possui propriedades “afrodisíacas”. A nadadeira chega a custar mais de mil dólares o quilo (cerca de R$5,2 mil). O que estimula a pesca ilegal.

Assim, após a extração das nadadeiras, os barcos limpam “o que sobrou”, jogam a carcaça de volta no oceano e voltam à superfície com o “cação”.

Douglas Peiró é biólogo e um dos responsáveis pela ONG Bióicos
Douglas Peiró é biólogo marinho e um dos responsáveis pelo Instituto de Biologia Marinha Bióicos

O consumo no Brasil

No Brasil, o mar definitivamente não está para peixe. O país é o maior importador de carne de tubarão no mundo, ou seja, boa parte daquele “resto” que é cortado e vendido como cação, acaba chegando em terras tupiniquins.

Já a produção por aqui também é preocupante e pode trazer riscos para o bioma marinho. Cerca de 33% das espécies de elasmobrânquios que existem no Brasil estão ameaçadas de extinção — para efeito de comparação, a média global é de 25%.

Então ao comer o “cação nacional”, é bem possível que seja carne de uma espécie ameaçada de extinção.

O biólogo marinho Douglas Peiró, Diretor Geral do Instituto de Biologia Marinha Bióicos, que cuidam da preservação e conscientização da vida marinha, explicou os riscos de extinção dessas espécies.

“Os elasmobrânquios são considerados predadores de topo de cadeia e, por isso, são muito importantes para o ecossistema, controlando as populações de espécies que estão abaixo deles na cadeia alimentar”,pondera.

“Seu desaparecimento pode causar um aumento nas populações de suas presas e, por consequência, a diminuição das populações de outras espécies e da biodiversidade no geral. Isso afetaria os estoques pesqueiros e até o ecoturismo, atividades importantes econômica e culturalmente para os humanos e principalmente para os brasileiros”, afirma o biólogo.

Mas os riscos do consumo dessa carne não se restringem apenas à questão ambiental, mas, sim, à saúde dos seres humanos.

Metais tóxicos no tubarão

O consumo desse tipo de carne traz sérios riscos aos humanos, pois as carnes provenientes de tubarão possuem índices acima do permitido de metais tóxicos — como o mercúrio.

Um estudo brasileiro publicado pela revista Food Science and Technology evidenciou que o cação vendido em São Paulo possuía de 0,04 a 4,71 mg Hg/kg de mercúrio. O permitido é de 1 mg Hg/kg.

De todas as peças usadas para o estudo, 54% tinham os índices de mercúrio acima desse limite colocado. Esse número também é um reflexo da falta de fiscalização e de controle da carne, já que não é possível rastrear e identificar de que espécie de tubarão vem o corte.

Douglas Peiró também conta que esse nível de mercúrio é justificável pela posição dos tubarões na cadeia alimentar.

“Isso acontece por conta da biomagnificação. É um processo que consiste no acúmulo progressivo de substâncias ao longo da cadeia alimentar. Ao se alimentar de presas que agregaram substâncias em pequenas quantidades, os elasmobrânquios as acumulam em maiores quantidades. E o mesmo ocorre com os humanos, quando nos alimentamos desses peixes: as substâncias se acumulam ainda mais em nossos corpos”, afirmou.

Quando ingerido em excesso, o mercúrio pode causar danos cerebrais graves, como desencadear a doença de Alzheimer, além de ser um metal altamente cancerígeno.

Mas isso não acontece com todos os peixes. O nutrólogo e especialista da Jolivi Natural Health, Dr. Wilson Rondó Jr, que está à frente da série mensal Remédio Natural, destaca a importância dos peixes na alimentação, mas ressalta que a procedência é fundamental.

“É melhor, sempre que possível, optar por peixes pequenos, que estão no meio da cadeia alimentar — o que não é o caso do tubarão. A sardinha é um bom exemplo de um peixe de meio de cadeia que pode ser ingerido”, indica.

Para variar o sabor e consumir peixes maiores — e para ocasiões especiais, por conta do preço —, o Dr. Rondó aponta os melhores para a saúde.

“Outros tipos de peixes, dos que nadam em águas profundas, geladas, são boas pedidas por serem menos afetados pela poluição. O salmão do Alasca ou da Groenlândia, por exemplo, é ótimo para quem quer comer peixe e se manter saudável ao mesmo tempo”, afirmou o especialista.

O consumo da carne de tubarão deve ser repensada. Tanto pelos danos ecológicos, quanto pelos danos que pode causar no organismo humano. Nadar contra essa maré nunca foi tão fácil.

Referências

  • MORALES-AIZPURÚA, Isabel C. et al. Mercúrio total em cação comercializado em São Paulo – SP, Brasil. Food Science and Technology [online]. 1999, v. 19, n. 3, pp. 429-432. https://doi.org/10.1590/S0101-20611999000300024.
  • SILLS, Jennifer. et al. Brazil can protect sharks worldwide. Science. 06 Aug 2021: Vol. 373, Issue 6555, pp. 633. https://doi.org/10.1126/science.abj9634
  • SALMAZO, Julia R. et al. Existe diferença entre cação e tubarão? 2020. Instituto de Biologia Marinha Bióicos. Disponível em: https://www.bioicos.org.br/post/existe-diferenca-entre-cacao-e-tubarao
Marcello Sapio
Marcello Sapio

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