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Não, o exame de toque não previne o câncer de próstata

calendarPublicação: 13/10/2021- Última atualização: 13/10/2021
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Não, o exame de toque não previne o câncer de próstata
Cabeça Brilhante
Cabeça Brilhante

Por Dr. Carlos Schlischka

A detecção precoce do câncer de próstata é uma questão, ao meu ver, ainda colocada de modo superficial e, até de certa maneira, inadequada pelos órgãos de saúde pública e de comunicação midiática; é preciso saber a diferença

Fala-se muito em “prevenção” do câncer e pouco em detecção precoce. E ambos os conceitos são às vezes confundidos. Exemplo: divulga-se amplamente que novembro é o “mês da prevenção do câncer de próstata” e que todo homem a partir dos 50 anos deve procurar o urologista e fazer o famoso exame de toque, para “prevenir” o câncer. Mas será que esta é a melhor forma de abordar o assunto?

Analisemos.

É claro, que sim, é importante ir ao urologista todos os anos. Você pode e deve estabelecer essa ida à sua rotina de saúde. Mas somente o toque não previne nada, pois apenas detecta a presença de uma anomalia da próstata: se está aumentada, inflamada, se tem algo diferente, como um tumor, por exemplo, etc.

O toque, então, é um método de detecção e não de prevenção. E, particularmente em relação a este câncer, é um método de detecção geralmente tardio, pois o câncer prostático evolui muito lentamente e muitas vezes os primeiros sintomas podem ser os relacionados já com a presença de metástases.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, “detecção precoce é o diagnóstico precoce (abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas da doença) e o rastreamento (aplicação de um teste ou exame numa população assintomática, aparentemente saudável, com objetivo de identificar lesões sugestivas de câncer e encaminhá-la para investigação e tratamento)”.

Ainda de acordo com a OMS, “o teste utilizado em rastreamento deve ser seguro, acessível financeiramente e de fácil aceitação pela população, ter sensibilidade e especificidade comprovadas, além de relação custo-efetividade favorável”.

Então, seguindo essas especificações, vamos analisar o nosso exemplo, referente ao câncer de próstata:

  • O diagnóstico não é precoce, pois na grande maioria dos casos, não é detectado câncer em seus estágios iniciais, principalmente se os homens forem assintomáticos.
  • O toque é seguro (não coloca o paciente em risco ao ser executado), acessível financeiramente, de relativamente fácil aceitação. Até aqui tudo bem, não é? Mas não tem sensibilidade suficiente, não tem especificidade, e não detecta nada precocemente. Então somente ele não basta!

Compararemos então com o exame de detecção precoce e rastreamento de câncer de colo do útero, este que toda mulher faz a cada seis meses ou a cada ano, quando vai ao ginecologista. É talvez o mais antigo, simples, barato e dos mais eficazes que existem. 

Realmente, este é um verdadeiro exame de detecção precoce de câncer, altamente eficaz. Ele se baseia no reconhecimento de que o câncer invasivo evolui a partir da observação de certas lesões celulares que podem ser detectadas através do teste de Papanicolau (exame citopatológico do colo do útero).

É um exame acessível a todas as mulheres, barato, fácil de ser realizado, de ampla aceitação, alta disponibilidade, não invasivo, muito seguro e de alta especificidade. 

Segundo a OMS, a experiência de alguns países desenvolvidos mostra que a incidência do câncer do colo do útero foi reduzida em torno de 80%, onde o rastreamento citológico foi implantado com qualidade, cobertura, tratamento e seguimento das mulheres. Tão eficaz que o câncer de colo de útero é considerado há muito tempo como uma doença prevalente de países muito pobres e altamente subdesenvolvidos!

Mas por que detectar precocemente um câncer é importante? 

É que, na grande maioria dos casos, um câncer não se desenvolve de um dia para o outro — a não ser, por exemplo, certos tipos de tumor em crianças, altamente agressivos. 

São necessários anos de agressão a um determinado órgão ou tecido alvo (que possua alguma tendência familiar, genética), que é sensibilizado de maneira contínua e intensa ao longo do tempo. Esta sensibilização é que vai “apertar” o gatilho de algum gene para o câncer (que você eventualmente tenha herdado) para que ele seja ativado e o processo de malignização seja desencadeado.

Ok, mas e a prevenção? 

Prevenção é um conjunto de medidas que devem ser tomadas para evitar o aparecimento de determinada doença. 

No caso específico do câncer, as principais medidas são aquelas relacionadas (e eu sempre bato na mesma tecla) ao estilo de vida, e que todos estão “carecas” de saber: 

  • Alimentação saudável (de preferência com restrição calórica)
  • Hidratação adequada
  • Exercícios físicos moderados
  • Sono adequado
  • Evitar poluentes ao máximo (preferir ar puro, água pura, alimentos orgânicos, etc) 
  • Evitar tabagismo, drogas (entre elas o açúcar: vocês sabiam que o índice de câncer é muito mais alto em pessoas com sobrepeso, obesas e/ou diabéticas?)
  • Evitar álcool ao máximo (o álcool é altamente inflamatório e cancerígeno e, pelo que sabemos, não existe dose segura).

“Prevenção total” é muito difícil, talvez impossível. Principalmente em relação aos poluentes, que ingerimos através do ar, da água e dos alimentos. A gente consegue controlar muitas coisas, com um estilo de vida saudável, desintoxicação e suplementação adequada. Mas pode não ser suficiente.

Aí, então, é que a detecção precoce se torna muito importante. E o bom é que os exames para a detecção precoce em relação aos cânceres mais comuns, atualmente, estão bem acessíveis a grande parte da população, são altamente específicos e pouco ou nada invasivos.

Na próxima coluna, vou falar mais especificamente sobre eles e também como fazer uma auto-observação e autoexame. 

Mas já vou adiantar pra você que muito importante é começar (se já não o faz) a conhecer o seu corpo. Comece se perguntando se existe algum caso de câncer na sua família e em que idade se manifestou no antepassado. 

Comece seu  autoexame, observando seu corpo todo (nu) num espelho, frente e verso, todos os dias, procure notar se apareceu algum ”caroço” ou “íngua” ou lesão de pele, como uma mancha ou “verruga” esquisita, que está crescendo, faça autoexame das mamas, apalpe os testículos, etc. 

Como está o aspecto do seu cocô? E a urina? Mudou? Qual a cor? Como está o cheiro? Tem sangue? Tosse crônica? Rouquidão? Tem catarro? Que cor? Tem sangue? Tem má digestão? 

Comece a se observar. Até a próxima e um grande abraço!

Referências

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA (INCA). Detecção precoce do câncer. – Rio de Janeiro : INCA, 2021.

 https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-do-colo-do-utero/acoes-de-controle/deteccao-precoce

 WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Cervical cancer screening in developing countries : report of a WHO consultation. WHO, 2002a.

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